Grande entrevista de Verão
Entrevistas a homes e mulheres de referência na grei caramela, que muitas vezes passam do anonimato às bocas do povo, simplesmente porque o marecem.
É este o caso do nosso actual entrebistado, um home crú, orgulhoso das suas raízes, um home em contínua transformação, um alquimista, capaz de transformar o ouro em estrelas…
Mais uma vez a FLC em grande entrevista. Fomos ao taparuer escondido atrás do frigorifico do nosso esconderijo actual e de lá retirámos o suficiente para atestar o depósito da motorizada de serviço e mais algum para umas mines, caso a entrebista para aí se albergasse. Almoçámos bem. Um balente arroto em uníssono (quanto mais alto e prolongado maior a satisfação digestiba) marcou o arranque da máquina a motor e consequentemente da biaige direitos ao nosso entrebistado. O esconderijo ficou para trás, o destino agora é outro: Olhos de Água, terra aberta ao sol e à heróica brabeza dos seus habitantes.
O encontro foi marcado na paraige dos autocarros. Abistamo-la lá ao longe, o sol a bater na sua chaparia como um maço no escopo de um padreiro experiente. Estacionámos em derrapaige diagonal. O nosso home já lá está. Pernas estendidas e cruzadas, está entratido a cortar as unhas das mãos com uma tesoura de podar. Sorri quando percebe que a FLC chegou. Está em contra-luz e gosta de mostrar os dentes, a sua cramalheira quase que nos ofusca a bisão. Aninhamo-nos os três no banco corrido da paraige. A esta hora não há ainda ninguém, aqui só passa uma fragnete-colectiba-a-motor uma bez por dia, podemos cunbersar à buntade, estamos em território amigo, ter os Olhos de Áuga éi aquase tão refrescante como uma melancia nas primeiras hora da matinal Raforma Agrária.
Prestem bem atenção agora: o nosso home beio ao mundo com o nome de Albertino Nidberto dos Nicolaus. “esse nome éi pa esquecer, puta cu pariu!”, diz-nos mostrando que a partir dali só o debemos tratar por Nidberto da Cramalheira Doirada, “Berto da Cramalhera para os amigos”.
O Bertoéi aquase sozinho o tema de cunbersa das sedes e colectibidades da nossa caramelândia, neste berão. Do Lau ao Forninho, das Lagameças ao Rio Frio, dos Arraiados à Lagoa da Palha não há quem ainda nã tenha óbido falar dele. Motivo: o leilão que ele tebe na ideia de fazer, prometendo a sua cramalheira em troca de dinheiro, ou seja quem der mais leba a dintadura com nada mais nada menos do que 8 dentes d’ouro, “d’ourinho balente cumprado na capital, na óribesaria do Morais, só os corta-palhas da frente reluzem tanto que às bezes a nha pariga atei tem que pôr os óculos de soldar, pa falar comigo, quando o sol tá malino como hoje. Posso também garantir que nunca os labo, só beêm um palito de tempos a tempo, pa escarafunchar o conduto maior, de modo que o ourinho tá lá todo, nim oxida nim nada”, diz ele com orgulho, abrindo a boca e batendo com os quatro dentes de cima nos quatro dentes de baixo, fazendo um som estilo ferrinhos do rancho. Perguntamos-lhe por que os quer vender, quando está à vista que a sua cramalheira é a sua cara. Responde-nos que a história éi longa, mas se quisermos óbir ele pode cuntar, hoje já na tem mais nada pa fazer, talvez ainda andar à padrada com mais dois ou três amigos mas isso são outras histórias, “um home tamém tem direito a dibertir-se”afirma batendo repetidamente com as costas na chaparia e rindo-se com o corpo todo.
Ajeita-se na paraige, escolhe um local onde o sol lhe bata na cramalheira (bê-se que gosta de impressionar os outros com os dentes) e com um só movimento saca uma grade de médias debaixo do banco corrido, de onde retira três exemplares. Abre uma a uma com uma seca e certeira pração da carica contra a chapa mais rija da paraige. De médias bolta e meia cheias, bolta e meia bazias, começamos a oubir a explicação (um canito de raça coelhera aproxima-se e senta-se perto de nós intartido a roer os bocados maiores das unhas que ficaram no chão):” a minha filha, Anacleta Imborcativa, casada com o Alcindo Escabador, tem uma gaiata que anda na escola primáira. Uma bez fui buscá-la à escola de motorizada e disse-me que iam fazer uma bisita de estudo à capital, fiquei todo cuntente a pinsar que ela ia ao marcado, ou à cunpratiba ou ao Gil das Farinhas. Quando chegou da tal bisita, parguntei-lhe se tinham dados sacos da cumpratiba à gaiataige ó se tinha bisto a torre da estação, ela nã parcebeu a pargunta e disse que tinha ido a Lisboa a um sitio chamado planetaige ó planetairo, nã sei bem, e eu a pinsar que a capital para ela era o Pinhal Nobo, mas não, bi que na escola nã insinam grande coisa aos gaiatos. No dia seguinte, (inspirou fundo, cruzou as pernas e bebeu o resto da média de penalte, como que a buscar inspiração e memóira pá sua cunbersa, o canito rosnou, concentrado no seu petisco unhal, a roer ainda uns restos de conduto auricular a elas agarrado) fui à escola e pricurei o tal professor. Disse que só caria fazer uma pricura, caria parguntar qual era a nossa capital: ele raspondeu com um ar de quim sabe tudo: Lisboa! Eu infurecido só lhe disse: ai éi? Atãoi bócê na sabe que tamos na caramelândia e que a nossa capital éi o Pinhal Nobo?!!!. Nim o dixei rasponder, apraguei-me a ele e dei-lhe um tareão mesmo im frente aos gaiatos, dentro da sala de aula. No final parguntei-lhe ótra bez sobre a capital: ele lebantou o quexo e disse pinhal novo, ainda a gaguejar. Dei-lhe mais uma punhada, ele rabolou e só parou ao pé do quadro. Eu calmamente (nã sou home de me inerbar nem de biolências) disse: tá aquase certo, só que nã se diz novo diz-se no-bo".
Ódepois (agachou-se e puxou outra grade de médias debaixo do banco, serbiu-se e serbiu-nos, bebam, bebam repazes, aqui são os olhos d’áuga mas pó buxo só inturnamos surbia) birei-me pá gaiataige e disse: pórtim-se bem ó xabalada, e debaixo de uma chuba de palmas da galfaraige e das cuntínuas saí da escola".
A entrebista cuntínua, éi que senão fica muito grande pa bócês lerem tudo de uma bez e podem ficar imbaralhados cum tanta leitura. Bão mas éi buer umas mines, cu calor tá mais parbo que um papo-seco sim conduto.