10.11.09

Carta inbiada lá para os lados daquele castelo que se bê além ao longe


Frente de Libertação Caramela
Esconderijo projectado à malhada do aceiro do Ti Toino Desinxaugado
Comando Central para a Liberdade da Cultura Caramela (CCLCC)



Exma Prasidenta da Sede Palmelona, Ana Taresa Bicente

Bocemecê dá licença? Atão como é que éi?
Samos a gente da Frente de Libertação Caramela (FLC), os homes e mulheres que lutam pela soberania e auto determinação da Cultura Caramela. Samos balentemente conhecidos pelas incursões clandestinas im prol do pobo caramelo impunhando apenas, um naperon branco, uma saca de ração pá bicheza e um rolo de fita cola do marcado mensal, coisa que muita gente nunca foi capaz de fazer, nim nada.
A gente tá a escraber esta carta… e só pa bocemecê ber o nibel, escrebe um de cada bez: ora escrebo eu ora ecrebe ele, ora escrebe o Albino dos Ácaros, ora escrebe ela, odepois escrebemos todos juntos, engalfinhados uns nos outros porque temos muito pra dizer e só temos esta máquina de escreber pra trinta braços e 20 mãos (malta da fugetaige, tá-se a ber!). Tudo isto pra dizer a bocemecê que a gente tá a escreber esta carta à luz do pitroil e o que a seguir bamos determinar éi dito im boz alta por todos ao mesmo tempo, tal é a cuncórdia aqui da grei caramela.
Atão éi assim:
Im primeiros, através dos nossos radares de alguidar da Cunpratiba, tamos a olserbar de perto a sua recontinuação na chefia do edil camarário. Abisamos já que o monte palmelão tá rodeado até-mais-não das milícias mais brabias (recrutadas cum balentia dentro da Vala da Salgueirinha), sempre prontas a abançar ao mínimo sinal de teor anti-caramelo.

Im segundos, a FLC, sem se pôr na ponta dos chispes, é a que ajunta maior cagulo de qualidades ruralo-metropolitanas, e cunsidera-se soberana dos destinos do Pobo Caramelo, que se debe manter selbaige e libre como o vento da Socel. No intanto respeita a Sede dos Paços do Concelho, assim como a bocemecê, e estamos prontos a negociar de forma desinçaimada.

Im seguida temos a abisar que essa maniazinha de bocemecê dizer que o nosso binho é de Palmela nã tem trambelho nhum, toda a gente sabe (até a gaiateige parba que anda à formiga d’asa pa armar ós pássaros) que o binho é 100% caramelo. Não há que inganar. Além disso a Cidade do Binho nã é nim im Palmela nim im porra nhuma, éi im Fernando Pó e mais nada.

Ó despois, tal como a gente se ajuntámos agora à bolta da máquina de escreber, bocêzes tamém debem ter o costume de se ajuntar uns amais os outros. No intanto sabemos que neste momento têm amais bocês um home nobo que dá pelo nome de Albaro (que éi só o intigo parsidente da Capital Caramela! – Pinhal Nobo). Tratim bem desse home, deixem o home buer mines e traçar coirato à buntade, mesmo quando está im trabalho. A ber se ele nã se esquece das suas ancestrais raízes caramelas. Bamos estar a olserbar de geada a geada, disfarçados de gaveta aparbalhada (daquelas que nã querim fechar nim ó pontapé), pra berificar se o home é bem tratado.

Mais ainda, se o actual parsidente da Capital Caramela (digitalizado im cirimóina no dia 28 pelas 21:30), der a bocê, de bez im quando, uma punhada pas costas, não lebe isso a mal pois mais não é do que uma expressão brabia de elevada afectibidade caramela. Mais, se o home im causa, com os olhos arregalados a brilhar, abrir uma nabalhita à su frente, não chame a Guarda, porque isso mais não éi do que um acto expontâneo-gastronómico e cuncerteza se olhar bem à su bolta, bai incontrar pelo menos uma maçã riscadinha pronta a ser desnabalhada. Isto são só alguns abisos para um saudável cunbibio autárquico. Se tiber dúbidas im relação ao fitio do parsidente do Pinhal Novo, não hesite im cuntactar a gente, por código morse im pitromax (minsaige nocturna) ou pombo-correio (minsaige diurna), ca gente desundubida bocemecê.

Muitas coisas a FLC tem pa dzer, assim como só por exemplos, que a Torre da Estação da capital poderá ser ocupada a todo o momento por pelotões mais brabios, com o fim transformatibo de fazer dela um posto de lançamento de foguetaige rija dos Círios da Carregueira. Já agora, sim carer ser aborrecidos como a canzoada a ganir im frente à rulote da bacina municipal, era de balor óbir da sua boca que todo o caramelo ou caramela, mesmo a morar num arranha céus, tem direito a um padaço de terra e um carrinho de mão.

Balentemente atentos à sua pessoa,
Sim mais nada daqui prá í,
Cuntentes por este cuntacto chegar às suas mãos,
A gente bê-se por alturas da Feira de Maio.

Quintal desactivado do Café Satélite, sob a primeira geada do Outono de 2009,
Embaixador do Vale dos Barris e resto de Palmela,
Albano da Motosserra


Nota: Esta carta foi realmente inbiada, por correio normal, por alturas da cerimóina de digitalização do cargo im questão e só depois (que é agora) é que a tamos a botar para consulta e conhecimento do pobo caramelo.

A FLC, às bossas ordens.

25.9.09

Nobo libro de Toino das Ideias Parbas tá quase pronto


Não é uma notícia qualquer! Não é um home qualquer! Não são pinsamentos qualqueres! Não debe de ser um libro qualquer! No intanto, éi para qualquer um ler, pelo menos esta éi a opinião do seu autor.

Apresentamos aqui, de forma inédita, um excerto do 3º capítulo do novo livro do mais conceituado filósofo caramelo da actualidade:


3 homes à cunbersa na parte de fora de uma colectibidade im qualquer lado da caramelândia . Um banco corrido, duas motorizadas estacionadas, várias mines vazias, a tarde aquase noite.


- biram aquilo onte?

-bimos.

-óbiram?

-óbimos.

-o queira?

-nã sei.

-ê cá tamém na sei.

-atão mas nã biram?

-bimos

-Atão mas na óbiram?

-óbimos.

- e atão o queira?

- na sabemos.

-na sabem?!! Atão mas se biram e óbiram!

- sim, bimos é óbimos.

- ahhh, atão sabim!

- sabemos o quêi?

- que biram e óbiram.

- sim, sabemos.

- atão o quéira?

- na sei

-na sei.

- Tal tá a merda! Atão tão parbos? Dizem que sim e ódepois não?

-Tu éi quês parbo, sabemos que bimos e óbimos mas nã sabemos o que bimos e óbimos.

-ahhh, óbiram sem ber e biram sem óbir!

-mais ó menos isso, mas nim uma coisa, nim outra.

- atão mas éi possibél óbir sim ber e ber sim óbir, tudo ó mesmo tempo?

-nã sei

-nã sei.

-Mau, tal tá a porra da merda, hãin? Dizem que sim, sim dzer que não e que não, sim dzer que sim?!!

- Atão tar parado nã éi o mesmo que tár andar e tár andar nã éi o mesmo que tár parado?

- O quêi?!!!! (os otros dois em coro, ajuntados agora o que perguntava e um dos que dizia nã sei, agora juntos fazendo parguntas ao outro dos que primeiro respondia nã sei, agora sozinho e alvo das perguntas desintrambelhadas dos outros dois).

- sim, atão na dizem ca Terra anda á roda e ca gente anda sempre nela tipo carrossel?

-?!!!!!!!!??!!!!

(os otros dois em silêncio emparbalhado, a olhar para o outro já desconfiados e quase prontos para garrearem com as mãos fechadas, respondem)

- ái éi? atão se fosse assim, lá era praciso haber a feira de Maio e pôr os gaiatos nos carrósseis? E nim era praciso buer mines de litro pa ficarmos tontos, se essa ideia parba da terra andar à roda fosse de bardade.

- Tou a dzer, aprindi na escola.

-Tás parbo.

-não tou

-tás

-Nã tou

-tás!!!

-não tou, bócês éi que tão, nim sabem nadinha, nim metade do quê sei, nim merda nenhuma!

- queres andar à punhada ca gente, pã ber se a terra anda á roda ó seis tu que andas a rabolar pú chão?

-se quiserem, podim começar, bamos ber quim rabola ou quim arroja pú chão, comós sacos de batata noba!

(…)Negrito


Puderam atão ler um pequeno excerto do nobo libro do Toino das Ideias Parbas, mais precisamente do 3º capítulo, intitulado a Problemática da Ilusão dos Sentidos, onde o autor introduz a temática através de simples conversas quotidianas, aparentemente banais, mas segundo ele, “rapletas de conduto filosófico de lamber os beiços e chorar por mais”.

De realçar que o título do livro será (se entretanto o Toino não mudar de ideias) O Pensamento Filosófico dos Caramelos nos Diálogos Populares do Quotidiano do Dia a Dia Actual.

A FLC sabe que esta obra foi realizada só com base em “diálogos, cunbersas e debates-garreias” que o Toino durante dois anos, foi escutando por toda a caramelândia, a maior parte deles em Colectibidades, Sedes de Ranchos Folclóricos, Cafés e à porta de lojas e mercearias e que depois lhe serviram de base de estudo, colocando em prática pela primeira vez uma teoria há muito defendida por si: a de que todos os homes têm um filósofo inibido dentro de si e que muitas vezes esse filósofo só sai cá para fora a toque de mines e conbibio intra-caramelo tarde-noite (a)fora (teve uma bolsa do Ministério Caramelo da Cultura que lhe subsidiou as muitas rodadas que teve de pagar durante os dois anos de investigação).

Através dos diversos diálogos oubidos na Carreguera, Palhota, Fonte da Vaca, Forninho e por aí adiante, o nosso filósofo exercita-se com rara mestria e delicia-nos com vastas divagações sobre temas que lhe são caros desde sempre: o realismo campestró-colectibo- anti-latifundiário; os príncipios do pinsamento caramelo neo-contemporâneo, a dialéctica selvagem da punhada-recreativa, o homo meio-bidonistico, o pós-existêncialismo agro-pecuário, entre outros temas apaixonantes e de grande interesse para o público caramelo, mostrando um pensamento cada vez mais luminoso e intelectuo-encantatório.

Com os simples diálogos populares (que são sempre a introdução dos capítulos) o Toino quer provar que todos temos conversas filosóficas e que elas estão por toda a parte e que o homo-caramelus, mantém as mesmas dúvidas existenciais que os seus ancestrais antepassados.

Por ultimo, este novo livro também apresenta a sua nova área de estudo, complexa e simples ao mesmo tempo (um tema apaixonante, segundo Florindo Introspectibo, o autor do prefácio do livro), O Carrossel da Terra bersus os Carrósseis da feira de Maio, o qual versa sobre a teoria geocêntrica (éi a Terra c'anda!) e a teoria heliocêntrica (éi o Sol c'anda!), sobre “a ilusão dos sentidos-parbos” e a recusa natural de um pobo em não aceitar aquilo que não bê, um tema que o Toino das Ideias Parvas tinha há muito recalcado dentro de si, pois foi esta temática a razão dos primeiros tareões com cinto que o seu pai lhe deu, quando se apercebeu que o seu filho em vez de se dedicar às lides agrárias e ver se o motor de rega tába a trabalhar em condições, “só tinha ideias parbas e ficaba aquase inbalsamado, durante horas a olhar pó céu de noite, a ber se sintia a terra andar à roda”.

Um livro que a FLC recomenda totalmente (talvez o melhor livro já aqui apresentado até hoje), disponível a partir de Outubro no Marcado do Pinhal Nobo, nas sedes dos Ranchos Folclóricos, Juntas de Freguesias e nos circuitos clandestinos da cultura caramela.


A não perder, para ler e reler!

10.9.09

Grande entrevista (3ª e última parte)
(…) Eu era o mais guloso, era à colherada pó buxo, à ganância açucarada. Eu amais o Albanito do Solstício, o Vítor Agrário e o Florindo Paleólitico, inbentámos uma traçaige noba: comíamos coiratos que ficabam de um dia pó outro com açucre, rijos que nim chaparia mas docinhos cmó mel, era mais ó menos meio saco d’açucre por cada coirato, por isso hoje acho graça à bossa nobela, nunca perco um episóido dos Coiratos cum Açúcar ó lá o quéi! E ódepois (saiu a 10ª grade de médias, esta taba em cima da paraige) a nossa brincadera faborita, quando nã estábamos na época nem de armar ó bisgo nem da pesca nocturna-clandestina do Lagostim na Chaboca, era andar á padrada uns cus outros. Ora, uma coisa e outra, deram-me cabo da cramalheira, mais os insaios da padrada do que o açucre e quando fiz a tropa já só tinha três dentitos, dois deles quase a cair da boca abaixo. Nã me importaba, sempre cuntinuei a traçar coirato e costeleta de porco.
Ora bem, uma bez na Feira de Maio da capital, os homes dos carros de choque anunciaram no altifalante que o seu chefe (o que só bende fichas, na faz mais nada, ele é que manda) oferecia uma recompensa por quem lhe desse alguns dentes que lhe faltabam na sua cramalheira, o home caria traçar torresmos e torrão d’alicante e nã cunseguia. Eu, manhoso coma ciganaige do Marcado do Pinhal Nobo, tratei de pricurar o que eles dabam im troca: um dente de ouro, uma balente sacada de fichas amais andar num carro de choque artilhado sempre que quisesse. Nim pinsei duas bezes. Disse que oferecia os mês dentes todos (aqui inganeio-os, pois eles já nã eram muitos, só por causa disto, bamos buer atão a abaladiça!). Lebaram-me ó chefe lá na cabina, abri a boca, ele pôs uns óculos de ber ó perto, olserbou cá par dentro e disse: são mesmo esses que eu procurava!; já mos cariam arrancar logo ali com uma gazua de assentar o chão da pista, mas eu apanhei medo e disse que no outro dia lá estaria com os dentes.
Assim foi, fui ao Rui Ferrador logo ali ao lado e o home lá me arrancou o resto da cramalhera. Fiquei com fichas pó resto da feira de Maio, tibe as parigas todas que quis, fui o rei da pista, tibe o cuidado de só comer coirataige menos rija e no final, boltei ao Rui Ferrador pa ele me aparafusar o mê nobo dente douro com qualquer coisa que tibesse à mão.
Chaguei aos Olhos d’áuga de carrinho de choque (o home-dono da pista ficou mesmo cuntente e atei me emprestou um carrinho de choque que depois o Rui Ferrador retficou pa andar no asfalto e terra batida sim ser praciso botar fichas) e todos se admiraram com o mê dente, as parigas sorriam par mim e eu pinsei, hás de ter mais destes na tu boca, hás de ser um home raspeitado. E assim foi, fui coleccionando, a pouco e pouco, ora cumpraba um, ora cunpraba outro, atei que depois de muitos anos tenho esta cramalheira de fazer inbeja ao Rei-Rapa. Agora bou leiloá-la, já tá à benda em toda a caramelândia, nas sedes e colectibidades, quem der mais fica cum ela e bou ódepois cuncretizar o mê sonho: construir um posto de olserbação da estrelaige pá nha neta.
O Babuíno Aluado (grande inventor caramelo) também já tá todo intusisamado e já deu esta ideia: montar uns andaimes im forma de torre bertical, com uma altura nunca bista na caramelândia, mais alta do que daqui-ali (levanta-se e aponta lá pó longe com o dedo esticado, nim ele sabe bem para onde), secalhar atei mais! De dia cobre-se com um oleado por cima e pede-se a um home-artista da terra para pintar umas estrelas na parte de dentro pa inganar a gaiataige e à noite destapa-se o oliado e lá do alto, olserbamos as estrelas aquaise a tocar nelas e tamém se quisermos, pode serbir de farol, pás motorizadas que andam à noite de colectibidade im colectibidade por essa caramelândia afora, se guiarem, sabendo sempre onde são os Olhos d’Áuga (nesta altura o canito já dorme, a paraige éi agora apenas mais um vulto na escura noite). Entretanto ouvem-se passadas na gravilha. Alguém se aproxima com um pitromax, éi o Florindo Paleolítico, que se assenta ao nosso lado. O Berto da Cramalheira, feliz e aquase inbalsamado pelas médias que já inborcou diz-lhe “bens mesmo a horas, ia propor a abaladiça!”. Buemos atão a última, desta vez em silêncio individual.
A noite éi agora dos grilos, das arganaças selvagens (estilo coelhos adultos) e de todo o tipo de bicheza nocturna que a esta hora ganha vida e liberdade existencial. O canito acordou e roi agora (só para se entreter) umas das muitas grades de médias que povoam o chão da paraige.
Muito a custo lebantamo-nos do banco corrido e encontramos a menarda da FLC. Pomos os capacetes debaixo do braço e montamo-nos a cavalo como se se tibesse lebantado uma araige parba que nos impurra pa um lado e pa outro. Ainda óbimos o Berto da Cramalhera a vociferar para o Florindo Paleólitico:”olha bem aí o Victor Agrário de pitromax na mão!Éi sinal de que nos bamos dibertir, bamos andar à padrada uns cús otros, como quando éramos gaitos parbos!”.
A paraige das caminetas fica para trás. Sobre nós o infinito céu estrelado, belo como milhares de meios-bidons im chamas.
As mesmas estrelas que nos Olhos d’Áuga “hão de ser bistas mesmo dó perto, tão dó-péi que atei bão ofuscar!”.

25.8.09

Cá está o Nidberto da Cramalheira amais a Ti Juila Espezinhada, os dois assintados na Paraige das Caminetas. O Nidberto pinsaba que quem taba a tirar a kodak eram homes do Jornal do Pinhal Nobo e por isso tapou a dintadura. A Ti Juila tába na hora d'almoço, a aprobeitar pa cozer umas ciroulas antes d'ir abrir a Marcearia .

23.8.09

Grande entrebista de verão (parte II)
Ora atão bamos cuntinuar a entrebista ao Nidberto da Cramalheira!
"(...) Podem botar também na nossa cunbersa que os homes do Ministério Caramelo da Educação debiam de pricurar professores mais caramelos do que alguns que por aí bejo, que insinassem ao gado míudo o que éi ser caramelo, o quéi a nossa cultura. Bejam que atéi eu que só tenho a 2ª classe sei qual éi a nossa capital, nã sadmite isso a um home-professor, que eu atéi os raspeito muito”.
Dito isto (já íamos na quinta grade de médias), o Nidberto da Cramalheira foi direito ao assunto, prestem bem atenção agora, que ele bai falar mesmo rápido:”atão a nha neta beio de lá de Lisboa a dzer que biu as estrelas dentro de uma casa que lá o céu éi lindo como nunca tinha bisto eu parguntei-lhe se taba parba se foi lá de dia de dia nã há estrelas ela disse que não dentro da tal casa taba de noite eu disse tás parba e dei-lhe uma balente galheta nos quexos ela atei andou pú chão ficou a chorar e foi dizer à mãe a mãe dela (nha filha, Anacleta Imborcatiba) disse ó marido (ao Alcindo Escabador) e ele beio parguntar o quéi-que se passou eu disse que a gaiata tá parba ele disse-me párbo tá bócê ainda nos ingalfanhámos à punhada na rua os dois a rabolar por cima do intulho pós porcos bofatada e pontapéi a coisa acalmou ele foi à bida dele e eu á minha e eu ódepois atéi tibe pena da gaiata (aqui parou pa puxar ar e surbia pa dentro do corpo-vasilhame e arrincou outra bez o relato). Pus-me a pinsar fui à colectibidade pinsei a tarde toda e disse: atão ela aicha que lá as estrelas eí que são bonitas pois bai ber as nossas mais dó-pé tão perto que atei a bão incandiar e bai ber que as estrelas no céu da caramelândia éi que são as más lindas do mundo. Já tenho um plano (aqui abançámos pá sexta grade, esta taba na parte de trás da paraige, debaixo de umas silvas) falei com o Babuíno Aluado (inventor caramelo, também já entrevistado pela FLC), ele bai-me ajudar na ideia e agora só éi praciso dinheiro. Por isso tibe a ideia de leiloar a minha cramalheira de ouro puro que tantos inbejam e que bale uma furtuna. Fico sim dentes, mas com dinheiro para inbestir. Olhos de Áuga há de ter o primeiro olserbador da estrelaria de toda a caramelândia, e a nha neta bai ser a dona-gerente-utilizadora do estáminé, bai ser a nha herança par ela” (os olhos brilham pela primeira vez mais do que os dentes, as médias imborcam-se como caracóis com pão cum manteiga).
A conbersa bai longa. No horizonte da paraige, o sol caramelo começa a dar as últimas labaredas. Por aqui diz-se que são os raios do horizonte abaladiço. Normalmente é o pretexto para a(s) última(s) abaladiça(s) dos homes da terra, reunidos em pequenos grupos na Colectibidade e às vezes à porta da mercearia da Ti Juila Espezinhada. Também o Nelo nos diz:”bamos atão à abaladiça?” e saca de mais uma grade de médias (já bão 8 a dibidir por três homes). Antes de arrancar para mais uma parte da história, limpa a garganta e as vias nazais, fazendo sair da boca uma bela lasca de cor esverdeada e formato ligeiramente arredondado, a qual o canito sempre atento nem deixou cair no chão. Olhou orgulhoso pó canito e disse: “atão bou contar o resto, já éi de noite, mas tá agradábel, gosto de conbersar ao ralento selbaige da nha terra.
Atão oiçam agora, éi ingraçado! Erámos gaiatos (os olhos brilham novamente), róbava-mos açúcre na mercearia da Ti Juila Espezinhada...
(cuntinua).

17.8.09

Grande entrevista de Verão

Entrevistas a homes e mulheres de referência na grei caramela, que muitas vezes passam do anonimato às bocas do povo, simplesmente porque o marecem.
É este o caso do nosso actual entrebistado, um home crú, orgulhoso das suas raízes, um home em contínua transformação, um alquimista, capaz de transformar o ouro em estrelas…

Mais uma vez a FLC em grande entrevista. Fomos ao taparuer escondido atrás do frigorifico do nosso esconderijo actual e de lá retirámos o suficiente para atestar o depósito da motorizada de serviço e mais algum para umas mines, caso a entrebista para aí se albergasse. Almoçámos bem. Um balente arroto em uníssono (quanto mais alto e prolongado maior a satisfação digestiba) marcou o arranque da máquina a motor e consequentemente da biaige direitos ao nosso entrebistado. O esconderijo ficou para trás, o destino agora é outro: Olhos de Água, terra aberta ao sol e à heróica brabeza dos seus habitantes.
O encontro foi marcado na paraige dos autocarros. Abistamo-la lá ao longe, o sol a bater na sua chaparia como um maço no escopo de um padreiro experiente. Estacionámos em derrapaige diagonal. O nosso home já lá está. Pernas estendidas e cruzadas, está entratido a cortar as unhas das mãos com uma tesoura de podar. Sorri quando percebe que a FLC chegou. Está em contra-luz e gosta de mostrar os dentes, a sua cramalheira quase que nos ofusca a bisão. Aninhamo-nos os três no banco corrido da paraige. A esta hora não há ainda ninguém, aqui só passa uma fragnete-colectiba-a-motor uma bez por dia, podemos cunbersar à buntade, estamos em território amigo, ter os Olhos de Áuga éi aquase tão refrescante como uma melancia nas primeiras hora da matinal Raforma Agrária.
Prestem bem atenção agora: o nosso home beio ao mundo com o nome de Albertino Nidberto dos Nicolaus. “esse nome éi pa esquecer, puta cu pariu!”, diz-nos mostrando que a partir dali só o debemos tratar por Nidberto da Cramalheira Doirada, “Berto da Cramalhera para os amigos”.
O Bertoéi aquase sozinho o tema de cunbersa das sedes e colectibidades da nossa caramelândia, neste berão. Do Lau ao Forninho, das Lagameças ao Rio Frio, dos Arraiados à Lagoa da Palha não há quem ainda nã tenha óbido falar dele. Motivo: o leilão que ele tebe na ideia de fazer, prometendo a sua cramalheira em troca de dinheiro, ou seja quem der mais leba a dintadura com nada mais nada menos do que 8 dentes d’ouro, “d’ourinho balente cumprado na capital, na óribesaria do Morais, só os corta-palhas da frente reluzem tanto que às bezes a nha pariga atei tem que pôr os óculos de soldar, pa falar comigo, quando o sol tá malino como hoje. Posso também garantir que nunca os labo, só beêm um palito de tempos a tempo, pa escarafunchar o conduto maior, de modo que o ourinho tá lá todo, nim oxida nim nada”, diz ele com orgulho, abrindo a boca e batendo com os quatro dentes de cima nos quatro dentes de baixo, fazendo um som estilo ferrinhos do rancho. Perguntamos-lhe por que os quer vender, quando está à vista que a sua cramalheira é a sua cara. Responde-nos que a história éi longa, mas se quisermos óbir ele pode cuntar, hoje já na tem mais nada pa fazer, talvez ainda andar à padrada com mais dois ou três amigos mas isso são outras histórias, “um home tamém tem direito a dibertir-se”afirma batendo repetidamente com as costas na chaparia e rindo-se com o corpo todo.
Ajeita-se na paraige, escolhe um local onde o sol lhe bata na cramalheira (bê-se que gosta de impressionar os outros com os dentes) e com um só movimento saca uma grade de médias debaixo do banco corrido, de onde retira três exemplares. Abre uma a uma com uma seca e certeira pração da carica contra a chapa mais rija da paraige. De médias bolta e meia cheias, bolta e meia bazias, começamos a oubir a explicação (um canito de raça coelhera aproxima-se e senta-se perto de nós intartido a roer os bocados maiores das unhas que ficaram no chão):” a minha filha, Anacleta Imborcativa, casada com o Alcindo Escabador, tem uma gaiata que anda na escola primáira. Uma bez fui buscá-la à escola de motorizada e disse-me que iam fazer uma bisita de estudo à capital, fiquei todo cuntente a pinsar que ela ia ao marcado, ou à cunpratiba ou ao Gil das Farinhas. Quando chegou da tal bisita, parguntei-lhe se tinham dados sacos da cumpratiba à gaiataige ó se tinha bisto a torre da estação, ela nã parcebeu a pargunta e disse que tinha ido a Lisboa a um sitio chamado planetaige ó planetairo, nã sei bem, e eu a pinsar que a capital para ela era o Pinhal Nobo, mas não, bi que na escola nã insinam grande coisa aos gaiatos. No dia seguinte, (inspirou fundo, cruzou as pernas e bebeu o resto da média de penalte, como que a buscar inspiração e memóira pá sua cunbersa, o canito rosnou, concentrado no seu petisco unhal, a roer ainda uns restos de conduto auricular a elas agarrado) fui à escola e pricurei o tal professor. Disse que só caria fazer uma pricura, caria parguntar qual era a nossa capital: ele raspondeu com um ar de quim sabe tudo: Lisboa! Eu infurecido só lhe disse: ai éi? Atãoi bócê na sabe que tamos na caramelândia e que a nossa capital éi o Pinhal Nobo?!!!. Nim o dixei rasponder, apraguei-me a ele e dei-lhe um tareão mesmo im frente aos gaiatos, dentro da sala de aula. No final parguntei-lhe ótra bez sobre a capital: ele lebantou o quexo e disse pinhal novo, ainda a gaguejar. Dei-lhe mais uma punhada, ele rabolou e só parou ao pé do quadro. Eu calmamente (nã sou home de me inerbar nem de biolências) disse: tá aquase certo, só que nã se diz novo diz-se no-bo".
Ódepois (agachou-se e puxou outra grade de médias debaixo do banco, serbiu-se e serbiu-nos, bebam, bebam repazes, aqui são os olhos d’áuga mas pó buxo só inturnamos surbia) birei-me pá gaiataige e disse: pórtim-se bem ó xabalada, e debaixo de uma chuba de palmas da galfaraige e das cuntínuas saí da escola".
A entrebista cuntínua, éi que senão fica muito grande pa bócês lerem tudo de uma bez e podem ficar imbaralhados cum tanta leitura. Bão mas éi buer umas mines, cu calor tá mais parbo que um papo-seco sim conduto.

3.8.09

Classificados Caramelos

Compre, venda, troque, ofereça, pricure

Edição especial de verão- só para coleccionadores

Compro naperons antigos, nobos e belhos (Nã é praciso tirar os naperons dos móbeis, bou a casa ber se bale a pena, a maior parte das bezes nim bale a pena gastar gasóile)
Contacto: Guilherme Jibóia (Lau)

Troco retroescavadora usada por placa da câmara com alvará municipal para vazar entulho. Contacto: Julinho do Entulho

Compro pentes de bolso e navalhas de podar a vinha.
Nota:os pentes têm de ser de plástico, tem que dar para pentear pós lados e pá frente com um só movimento).
Contacto:Mariano Maquinista (pinhal novo)

Vendo gravações áudio (cassetes pa óbir no rádio) com o som do
fogo rijo da festa da atalaia, anos 1991 e 1993.
Contacto: 9154356780 (Celestino Bombista)

Vendo cagatório à antiga portuguesa (estilo retrete de cócoras) já bastante usada, mas em muito bom estado. Só para coleccionadores. Oferta de dois esfregões palha de aço, uma escova de arame e meio jerrican de produto-criolina pa desincardir e dar brilho.
Contacto: Armanda Arganaça (sou a dona da mercearia Compra e Põe-te ao Fresco, nos Arraiados)

Vendo pedras da linha do antigo ramal pinhal novo-montijo ao kilo. São mesmo as originais. Boas para ornamentar qualquer coisa, ou para guardar no armário (cada bez bão balorizar mais). Motivo: já nã tenho espaço im casa.
Contactar o Alcindo dos carros de mão.

Troco motor de rega casero por Zundapp noba amais o capacete. Só aceito se for noba, o motor de rega éi balente, atei suga a áuga da bala da merda.
Contacto: Ti Marta Garganera (Palhota)

Troco o primeiro livro clandestino do Toino das Ideias Parbas “o Infinito éi um tractor agrícola”(edição fotocopiada às escondidas, na sede do Rancho da Lagoa da Palha, pelo próprio autor), por 6 ou 7 garrafas de Vinho da Cascalhera, do ano passado ou atão por 8 grades de médias. Perguntem pelo Quintino da Sapec no Café América.
Vendo sanita antiga (a única que lá deu serventia) do café Satélite, ainda com o assento e tampa original. Peça bastante valiosa (o home que beio abaliar a peça até disse: “se este cagatório falasse…”). Só aceito ofertas a partir de 100 mil réis.
Contactar o Ti Enxaugado.

Vendo cartazes antigos do cinema da SFUA.
Colecção muito boa, cartazes dos filmes do ET, Indiana Jones, Gelado de Limão, Conan, Bud Sepencer, e vários dos cóbois e índios. Quem comprar o conjunto ganha uma sacada de rabuçados bola de neve e três fichas triplas.
Contactar: Belarmino Pançudo (tou na Sela, ós domingos nas matines dançantes), faço bom preço.

4.6.09

FLC SAI DA TOCA PRÁS FESTAS

Com que intão já pinsabam que a FLC já tinha sido amordaçada nos calaboices da ASAE por andar a fazer propaganda aos meio bidons em labaredas com carvão feito de trabessas da linha untadas com benzina, hã?
Nããã. Nada disso. A FLC tem andado mazé em actibidades diplomáticas pra elebar a cultura caramela a uma das sete marabilhas do mundo. Neste tempo de ausêiça conseguimos subir 400 posições ficando à frente da cultura neo-aparbalhada das calças pinduradas pas nalgas abaixo a ver-se o rego com cutão.
Mas não é do cutão no rego que a gente bai falar hoije. Éi das festas caramelas que estão aí a arrebentar que nem um patardo, capazes de cegar um home.
É por isso que as facções brabias da FLC saim da toca e bão prá rua berificar o bom corrimento das festibidades e afins. Por isso segue-se já sim demoras o nosso pograma de actibidades clandestinas:

Dia 8, Segunda:
6:30h – Alborada. Olserbação dos toiros da largada a pastar no seu habitat natural.
12:00h – Audição atenta da sirene dos bombeiros.
12:01h – Um silêncio parbo cum home fica logo com fome.
19:30h – Telefonema aos GNR a abisar que só faltam 24h pró rebentamento das festibidades e abisar que “as festas caramelas nã se fazim sim a GNR andar a inxotar a malta dum lado pró outro”.

Dia 9, Terça:
5:00h – Alborada e olserbação dos primeiros raios de sol a penetrarem no territóiro caramelo e apanha do feijão prá sopa caramela.
10:00h - Contaige dos barris de imparial a rebolarem Pátio Caramelo adentro e primeiras provas em canecas de litro.
12:00h – Espectáculo sinfónico da sirene dos bombeiros e momento de largar gasearia que ninguém oube.
18:00h – Contaige de gerricans de tinto, clandestinos, a intrarem no recinto festibo e acendimento oficial dos meio-bidons com querosene caté o bombeiro-estátua (na rotunda do LIDL) apanha medo.
20:29h – Carregamento de floberes (com chumbo calibrado), pra atirar às nalgas das Entidades Oficiais na inauguração das festas como forma de boas bindas ao ebento.
(É importante esclarecer que o “chumbo pas nalgas” é uma das massaiges com flober mais eficazes no mundo caramelo: faz activar a circulação sanguínea, põe uma pessoa mais esperta e cuncentrada no mundo que a rodeia, cura a sonolência aguda, estimula o sistema nerboso e a estima pelo corpo (nalgas), dá força pra bincer os infortúnios da bida e, entre muito mais curas, melhora a digestão da sopa caramela).
21:00h – Abertura oficial da primeira rodada de impariais e arranque do maior caramelizatório do mundo: as Festas Populares do Pinhal Novo 2009.

Só gente caramela como o nosso pobo,
faz festas como as do Pinhal Nobo.

6.3.09

Ti Balbina Acocorada lança nobo livro de poesia caramela

Sou os chispes da minha alma, é o novo título da Ti Balbina Acocorada.
O lançamento do livro vai ser no próximo sábado, dia 14 de Março, por bolta das 14h00 em frente à biblioteca de Pinhal Novo, e segundo Alcindo Escabador, o organizador do evento, a organização não se responsabiliza se alguns exemplares forem lançados selbáticamente por alguns fãns da Ti Balbina, “de incontro às montras da biblioteca im sinal de justo protesto por este estaminé da pseudo-cultura caramela nã ter sequer um único livro do maior bulto actual da poesia caramela contemporânea, e de nunca ter pricurado saber alguma coisa sobre a sua obra”.
Tal como aconteceu na sua obra anterior “"Poesia com Chispes de Luz", o prefácio vai ser da autoria do António Estalisnau Tarimba (mais conhecido por Toino das Ideias Parbas).
Deixamos aqui um pequeno excerto do que o Toino escrebeu: “Nesta nova obra, a Ti Balbina Acocorada prossegue a sua doce depuração de uma Poesia sensitivo-rude, de tradição feminista selbagem, que nos embala num regresso à nossa alma gémea caramela, que é afinal uma só. Li Sou os chispes da minha alma de uma assintada num acero descampado perto do Lau e absorbi a essência natural das suas palabras mágicas. Debo dizer que Ti Balbina canta o mundo e o molda à sua pessoa e nos insina o simples das palabras. Atrabés das metáforas e das segundas palabras-sentidos, é capaz de nos fazer oubir as motorizadas da nossa infância (em escape libre), de nos fazer ber (e cheirar) o pitróile do intigamente.
Ela escrebe poesia como quem bende hortelã e óregãos (em ramáiges ainda frescas) na rafórma agráira, é a boz caramela mais pura e actual, um refrão inbisibél mas acústico, uma mulher malina que não procura a fama e faz da obscuridade a luz clandestina da sua criação artístico-rural.
A sua poesia de alta radiação caramela é como criolina a desincardir os nossos obidos, uma labaige à cera do pensamento, elebando-nos a caramelos-gaiatos-quase-parbos em liberdade total, com a alma nos chispes.

Balintia é o mê nome

Tenho os chispes
im brasa
tenho bico
Na asa
Tenho fijão de molho
E biajo sempre de motorizada

Sou mulher rija
E malina
Nã tenho cadija
O mê nome é ti balbina

Fui escriturária e
Pé descalça
Ainda bou à raforma agráira
Nunca usei calça

É domingo:
Bou ao marcado
Tenho cabalo dado
Nunca lhe olhei pó dente
Nim usei datargente

Sou balente
Sou malina
Bou ó cagatóiro
Nunca usei
supositóiro

Sou a Ti Balbina
Se for praciso
bebo criolina

Sou acocorada e
Às bezes malcriada
Antes só
do que mal acumpanhada

Bou mímbóra

Bou desinfetar a basilha
Bou buer áuga e grabilha

Gosto da bicheza brabia
Como ratos e nã me dá azia

Bou ao urinol como ós homes
Ponho-me de cócoras
E nã uso pedra pomes

Esgrabato à parba
Bebo binho
E nã desidrato

Fiz de mim própria selbaige
Mas escolhi a minha biaige

Bou mimbora bou partir
A mim éi que
nã mapanham a dormir

Poemas retirados do novo livro “Sou os chispes da minha alma”



24.2.09

CARNABAL 2009

Este ano, a esquadra operacional para a ambientação carnabalesca (da FLC), decidiu limpar o céu caramelo de toda a espécie de nubéns e araiges, deixando apenas uns restos de mau tempo em cima do Castelo de Palmela. Sabendo disso, a nossa capital ficou a cagulo de tanto bisitante (muitos deles, só saem em dias de sol e, quando há nubéns, gostam de ver o corso pela telefonia). Eles binham em cachos de todo o lado e "só com trinta marcados do Pinhal Nobo ao mesmo tempo, e mais uma aparição de Fátima, é que se conseguia superar este gintio", disse Norberto das Nalgas, comandante do pelotão de vendedores de balões.
A FLC distribuiu pelas entranhas do corso, 232 agentes à paisana, assegurando a normalidade e a força da mais alta expressão do mundo caramelo moderno. Bamos lá intão ber a nossa reportaige.

Com medo que o corso fosse pequeno, a GNR decidiu, este ano, participar com um dos seus carros alegóricos. Os foliões bestidos a rigor com colete florescente, abriam alas com coreografias centrífugas. Mas nada que chegue ao nível do Rancho Folclórico das Lagameças.

Já se percebe melhor porque é que a GNR está ao comando do corso. É porque, logo atrás, os motards do Motoclube do Pinhal Novo, se transformaram em mines. Eh pá! Debe estar praí bem mais de duas grades de mines a apoquentar a guarda.

Os bardoada, atiçados pela FLC, mantêm a sua luta contra a música importada do Brasil que teima em sair das aparelhaiges palmelonas (como forma de boicotar o cortejo). Aqui nesta imaige podemos ber como eles trazem à gente o ritmo caramelo que tanto apreciamos.

Este ano dedicado à etnografia, convinha dar ao corso uma interpretação caramela. Por isso, qualquer que seja o povo representado, ele não sai deste carnabal incólume. Aqui pode-se ber a Cleopatra com um jerrican de binho da Cascalheira, mascarado de relicário.


Aqui é uma holandesa com ares de caramela da Palhota.



A FLC, não se responsabiliza por este momento. Não era assim que estava combinado.
A ideia era: subir e descer um taipal com um balde de massa de cimento, fingindo que se estava a encher uma placa clandestina (antes que a Câmara palmelona descubrisse). O que aqui se pode ber é uma actibidade importada da América que é subir e descer sempre o mesmo degrau. Gracinda Adiposa (porta boz dos bendedores de banha da reforma agrária) disse "é uma actibidade parba que não leba ninguém a lado nenhum, e na serbe pra nada".



A primeira aparição genuínamente caramela:
uma pudaleira-alegórica com elementos rurais. Olserbem as ramaiges ao volante.




Alem das ramaiges, leba atrás um cabaz da loja dos chineses com produtos bariados. Como a qualidade do cabaz não garante que que o conteúdo chegue ao fim do corso, é preciso um segundo caramelo para vigiar e manter a estabilidade. A evolução do povo holandês depende destas sugestões.



O carro alegórico dos Amigos de Baco, com um foguetão(??) feito de canas.




A FLC tem na forja o projecto dum corso carnabalesco dedicado só ao carrinho de mão. O que seria um caramelo sem um carrinho de mão? Como teria ele feito a maior binha do mundo sem carrinhos de mão? Como é que se transporta as hortaliças de um lado para o outro? Enfim...
Eis aqui um carrinho de mão alegórico como prelúdio de um futuro carnabal.


E AGORA...
A entrada em grande da segunda parte do corso, totalmente apoiada pela FLC. É a parte clandestino-espontânea que todos mais anseiam.
A abrir caminho, pode-se ber com todo o pormenor como um caramelo transforma um computador Magalhães.
Considerando que esta codaque não deixa ler bem o que está escrito ali, aqui vai: "O Caralhães de cana larga e intermete". Mesmo assim, não chega nem de perto à obscenidade propagandista dos computadores Magalhães.


Lá vai ele destemido.




Uma alusão ao caso Freeport e à crise, com um toque arquitectónico de um pombal.


As motarizadas em grande estilo. Já deram mais de mil voltas à Caramelândia e ainda estão aqui para dar mais uma volta ao Parque José Maria dos Santos. Nesta imaige está a acontecer uma rábula do "pegas ou não pegas, hã?" ... e ela pega ou não pega.


Vai um despique de roda im pei? Librete contra librete.



A Banda da SFUJA uma banda que, tal como os Bardoada, toca tamém músicas cá das nossas. O maestro vai com as nalgas ao leu, o coreto vai superlotado, e os instrumentos são oriundos da Canofer e da Drogaria Alegria.


O carro dos alentejanos é, na berdade, um autocarro da FLC, sempre de fogareiro aceso com coirato em fumaça. A FLC utiliza este beículo para fazer excursões aos charcos mais históricos da Caramelândia. As cadeiras eram do antigo cinema da SFUA.



É bom que se veja que o beículo está equipado com um belo de um sobreiro para fazer sombra e o chofer usa uma técnica de condução dos carrinhos de rolamentos.


E finalmente o último modelo do comboio caramelo. O tal que nos acompanha em todos os carnavais. Só que de uns anos para os outros a evolução é tal que nem a CIA nem a KGB conseguem acompanhar (andam todos almariados numa guerra pra saber como é que isto se faz). Nesta codáque ninguém cunsegue saber adonde começa nem adonde acaba este cumboio. Vamos por partes...


Aqui é visto de frente a fazer uma curva em alta belocidade. Pode-se ber que possui dois andares...




A carruaige de trás é mais reserbada à leitura e ao combibio, sendo o andar de cima destinado à gaiataige.



O andar de cima, da carruaige da frente, é para a classe executiva com vista panorâmica.


E a locomotiva, com o respectivo maquinista e todos os apetrechos.


Uma panorâmica geral do ebento, que proba a dimensão que o carnabal caramelo tomou. Esta multidão é a proba do balor do trabalho que alguns caramelos têm tido ao longo dos anos. Assim, os elementos da FLC prestam aqui homenagem ao Gonçalves, o maior dos foliões, que muito trabalhou para que o carnabal do Pinhal Nobo se tornasse no que é hoije. Ao Gonçalves, que nos deixou, estará sempre com a gente, e onde o humor caramelo estiber. Uma salva de patardos.


16.2.09

PINSAMENTO ATRAI PINSAMENTO

INQUANTO A MALTEZARIA ESTÁ A PINSAR ESTÁ INTARTIDA.

PRA PINSARES CÁ CAGENTE
E FICARES ENTARTIDO TAMÉM,

3.2.09

GRANDE EMPREENDIMENTO DA FLC

É hora de crise internacional! As grandes massas urbanas acordaram das suas culturas hipnotizadas e dormentes. É hora de fugirem dos hipermercados e centros comerciais, e procurarem a salvação. É a debandada total. É o dilúbio! É o tudo ou nada. É o salbe-se quem puder à procura das melhores culturas, fortes e imunes à podridão e ao mintiredo internacional. É hora de ganhar uma identidade sadia e independente.
Deribado a esta cunjuntura, a cultura caramela passou a ser uma das mais desejadas e procuradas do mundo. Nestes últimos 6 meses o nosso território tem registado uma avalanche de gintio de toda a espécie a querer converter-se repentinamente aos nossos costumes. As filas fazim lembrar as tardes de Domingo de marcado no Pinhal Novo e a FLC não tem dado bazão a tanto pedido de conversão para a nossa cultura.

Foi por isso que a FLC, de há 2 meses pra cá, investiu no maior empreendimento de que há memória: a construção de um caramelizatório.

O objectibo é que qualquer criatura deste mundo, quer tenha nascido nas grutas da Mongólia, quer tenha sido feito dentro dum frasco de marmelada (num laboratório alemão), saia deste aparelho com a cultura caramela completamente intranhada. Portantos, quer seja a Madonna quer seja um palmelão, quer seja o Papa, quando entram neste caramelizatório, sofrem uma metamorfose tal que, no fim, saltam de lá de dentro numa pudalera, à pressa pra chigar à reforma agrária.

Assim sendo, a primeira estação caramelizatória (em forma de carruaige do comboio), será implantada à entrada da nossa capital, dentro da SERAPA, e a inauguração será já no próximo dia 24 de Abril.

Passamos aqui um padaço de intrebista que o jornal O Limpa-Vidros, fez ao Ramiro Fusíbel, técnico de electrocussões e chefe deste projecto.

Jornal Limpa-Vidros – Intão como é que isto funciona?
Ramiro Fusíbel – Atão é assim: um home entra lá par dentro e o funcionamento começa com um banho de sulfatar esfregado com pedra-pomos, opois passa por um sistema de gavetas e acaba numa bela massaige esfoliante com as trabessas da linha pu lombo. Por isso, qualquer criatura infezada entra por um lado, toda esmorecida, e sai pu outro, esbafurida a pudalar numa pastelera e a garriar com a gaiateige e a garriar com as nubens.
JLV – Sofre então alterações no ser…
RF - Pois tá claro.
JLV – Dê lá aqui à gente um exemplo.
RF – Por exemples, isto é um supônhamos: dum lado entra um home qualquer, parbo, sim sangue nim cor, triste, a chirar a pandeleraige, cum palabras de sete-e-quinhentos e a brincar com um computador Magalhães. Opois passa lá por dentro e é regurgitado do outro lado como um home nobo.
JLV – E o computador tamém?
RF – Sim, o computador sai em granulado, pra fazer areia prás casas de banho públicas da canzoada.
JLV – E as pessoas saem todas da mesma maneira esbafuridas a pudalar e a garriar com a maltezaria que se atravessa à frente?
RF – Sim, isso é nos primeiros 20 minutos, ao fim duma hora começam a ganhar um bronzeado até meio da testa e ao fim dum dia começam a ganhar fitios diferentes: uns começam a gostar mais de mines e outros mais do binho da cascalheira, e outros de pão com torresmos…
JLV – E quando saem, ficam logo preparados pró dia-a-dia?
RF – Cumpletamente. Cada um sai já com uma nabalhita, um balde cheio de alpista (patrocinado pela Cumpratiba das Farinhas), uma coelha prenha e mais um sortido de bichesa dentro duma caixa de papelão atrás, no suporte da pastelera… Cada um vem já a saber como acinder um meio-bidom em dias de ventania, a fazer uma vedação só com tojos, a fazer marcha a trás num tractor com reboque, a orientar-se dentro do Marcado do Pinhal Nobo, a acinder o rastilho da foguetaige com o cigarro … eu sei lá mais o quê!
JLV – E esta transformação pode ser desfeita um dia mais tarde?
RF – Tá parbo ó quê!!! Caramelo é pró resto da bida ninguém bolta atrás.


Com esta intrebista esperamos cum ansiedade a instalação do novo caramelizatório e ficamos atentos aos resultados.
A cultura caramela é uma riqueza, o resto é só bicheza.

30.1.09

Notícias Breves da Caramelândia

-Formação “O Tinto Caramelo éi do Malhor que há!”

Dias 7 e 14 de Fevereiro no Café Lua Cheia Aparbalhada.
Formador: Atoino do Grau (Presidente da Associação Caramela das Bubaderas Festivas)
Inscrição livre (só é praçiso almoçar lá e ódepois da parte da tarde fazer despesa cunsiderábél ó balcão do café).

- Novo Programa “Ser caramelo desde gaiato”
Organização A.M.C. (Associação dos Moradores da Caramelândia)

Bai iniciar já amanhã este balente programa, o qual bai permitir a centenas de gaiatos das escolas primárias de todos os lados, uma bisita-biaige por alguns locais emblemáticos da cultura caramela.
De acordo com Balbuína Gerôndia (presidente da A.M.C.): "o objectivo deste projecto éi que exista um desimparbalhamento dos gaiatos e apostar numa caramelice precoce. Os gaiatos têm de dixar de ber parboíces na telebisão e irem mas éi ós ninhos e ó banho à Chaboca!".

Para amanhã (dia 31) o programa éi o seguinte:

Bisita-biaige à Raforma Agráira, ber os legumes e cunbersar com os homes e mulheres sobre a agricultura caramela;
Ida à Loja do António Brinca, ber o que há de mais actual na moda caramela;
Cortar o cabelo no Albarinho;
Pedir sacos de plástico na Cunpratiba
(pa lebar o lanche pá escola);
Bisita à Loja do Gil das Farinhas;
Imburcar uma Sumol de laranja (de pénalte) e uma intarmiada no Café Capuchinho.


Inscrição gratuita, bão todos até caberem.
A organização mandou dzer que nã sabe se o Julinho do Intulho pode lá tar com a sua fragnete. Se tiber, podem bir mais gaiatos ainda!

Este programa tem o apoio da Creche “O Gaiato Parbo” e do Balentim Desidratado, presidente do Forninho (bai emprestar uma charrete a motor “pa lebar a galfarraige míuda”).

- Prémio para a luta caramela

A FLC foi premiada com um prémio nã sei quê dos Dardos, prémio balente, atríbuido pelo Chapa Bloguite, que se aceita pelos seguintes motibos (pelo menos éi o que os homes do prémio dizem da gente): " o Prémio Dardos raconhece o balor que cada blogueiro (quem?!!) imprega ao transmitir balores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, im suma, damonstram a sua criatibidade através do pinsamento bibo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palabras. Esses selos foram criados com a intenção de promober o cúnbíbio entre os blogueiros (quem?!!), uma forma de demunstrar carinho e reconhecimento por um trabalho de lavoura agrário-cultural (a laboura acrascentámos nós) que agregue (dê, cunfira) balor à rede (a rede das cunbersas de bócês mais a gente).*"
Só por isto, no dia 31 de Janeiro, o Celestino Bombista já disse que bai lançar três morteros dos mais rijos que os Círios tiberem. A gente agrade e promete cuntinuar a garreia pela cultura e identidade do povo caramelo.

*O discurso foi traduzido pa um melhor intendimento-absorção do público caramelo.

25.1.09

FLC ABRE GABINETE DE ATENDIMENTO AO PÚBLICO


A FLC, instituição de utilidade pública, abriu um gabinete de atendimento ao público para resolver em tempo real todo o tipo de problemas de índole caramela. O problema de cada um, é resolbido na hora e nã é deixado para amanhã. O gabinete é 100% clandestino e, para que nem as Juntas de Freguesia da Nação Caramela possam saber adonde a gente exerce esta actibidade (e daí tirarem proveito eleitoral), o gabinete foi escondido dentro duma rulote das farturas devidamente equipado pró enfeite. Este beículo (inspirado da rulote das bacinas da canzoada), está sempre em movimento por esses aceiros afora, por isso quem quiser uma consulta tem que escreber práqui e a gente, por pombo-correio, combina secretamente o sítio e a hora de encontro. Como as consultas são grabadas e executadas no momento, fica aqui o registo duma delas a servir de exemplo de sucesso desta iniciatiba.


Consulta


- Intão boa tarde. Já pode tirar a alcofa da cabeça, porque já tamos im marcha e cá dentro tamos im segurança. – diz o técnico de assuntos caramelos, e continua: – Assente-se aí nessa saca de carbão que eu assento-me aqui im cima desta grade de mines. Atão diga lá o que é que tem, cagente resolbe já aqui.
- Sabe… é que eu moro há cinco anos no bairro da Salgueirinha mas não percebo nada da cultura caramela e de há uns meses para cá tenho notado que as pessoas me andam a chamar «acleimado». O acleimado prá qui, o acleimado prá li!!! Afinal o que é um acleimado? E como é que deixo de ser acleimado.
- Oh meu repaz, bocemecê tem mesmo um granda problema. Pior que acleimado só mesmo «pandelero». Fique sabendo que «acleimado» é o contrário de «home brabio».
- Assim como?
- É um home sim cultura nhuma, na sabe o que quer, nim quer o que sabe, nã tem pindéria nhuma e está sempre remelgado cum cara de parbo.
- Não sabe o que...!!!
- Ora por exemples, bocê sabe abrir uma mine com o isqueiro, assim? – e exemplifica.
- Eu não uso isqueiro, não fumo.
- Eu nã perguntei se fumava. Sabe ou nã sabe?
- Não.
- Intão bocê é um acleimado. Tome lá aqui um isqueiro e uma mine e tá já a praticar, vá.
- Mas posso-me queimar.
- Atão nã bê que esse isqueiro é da Corigues e já nã tem gás e nem faz faísca. Quem se queimou com ele já nã se queima mais.
- Ahhh.
- Agora diga lá a mim… bocê gosta mais de fazer tiro de flober ou prefere aspirar o carro.
- Bem… gosto mais de aspirar o carro.
- Porra, mas de bez im quando vai um tirinho de flober nas molas da roupa da bizinha, ou não?
- Náááá, isso não.
- E um tirinho nas nalgas da gataige vadia? Bá lá, diga a berdade.
- Ahhhggg também não.
- Nem arrãzaria nos charcos?
- Também não.
- MAU. Nã ma diga que nunca atirou de flober?
- Não!
- Eh pá, bocê é mesmo pocachinho e tem mesmo um problema séiro. Bocê nã é daqui! Mas a gente resolbe isso. Tá aqui esta flober e agora abra bem os olhos e olserbe. – Ele tira uma mãchinha de chumbos duma lata, mete eles na boca, ópois, com uma pancada seca abre a flober, tira um chumbinho da ponta da língua e infia ele no cano, ópois comenta – Este até bai lembido com cuspo e tudo. – e crava um tiro no meio dum tacho pindurado, e diz – Agora é a sua bez de espatar um tiro no tacho.
- Eu não sou de armas, e além disso ainda não consegui abrir a cerveja.
- Porra, despache lá isso. É por isso é que bocê é um acleimadito.
O home consegue finalmente abrir a mine, esguinchando-lhe espuma prás fuças. O técnico diz:
– Eh eh eh! Com essa espuma toda pu focinho bocê até podia fazer a barba. Já agora diga lá, como é que bocê faz a barba?
- Faço com água morna!
- Carago!!! Cum áuga morna?!!! MORNA??!!... Bocê é mesmo um acleimadinho de estufa, ponha mazé já uma bacia d’áuga a apanhar geada, e a partir de amanhã fazer a barba com a áuga coalhada de gelo, hã?
- Sim.
- Diga a mim mais uma coisa que me anda a roer o sintido: bocê diz tudo à sua maria?
- Sim, quando ela me pergunta eu digo.
- Mas diz mesmo tudo, tudo, tudo?
- Sim.
- Mesmo se bocê fosse à Cela, ou à Sorte no Azar amais uns amigos, chibava-se a ela quem eram os outros homes que foram amais bocê, e outros homes escundidos na penumbra que biu a buer champanhe, e isso tudo?
- Sim.
- A esburgar-se assim, bocê é o rei dos acleimados. Nem o padre o quer na igreja cum medo de bocê se mijar pas pernas abaixo e salpicar os joanetes às beatas. Agarra mazé já aqui na flober e tá já a apontar pró tacho, já.
- Sim, estou.
- Espeta já um tiro nele, já.
Ouve-se o disparo e o tacho a abanar.
ACERTEI!!!
- Porra. Agora diga-me uma coisa, bocê tá sempre com esse sorriso parbo ou é só bontade minha de lhe dar uma punhada?
"

A consulta continuou até ao ponto do técnico da FLC ter desacleimado por cumpleto a criatura. Fez dele um home brabio. Sabemos hoije que ele sente-se com muita balentia e quer ir prós forcados do Pinhal Nobo. Mais um home salvo, mais uma missão cumprida em defesa da nossa cultura e bons costumes.

Dicionário caramelo:
acleimado
derivado de “atoleimado”: home parbo, poucachinho que na sabe fazer nada e habitua-se àquilo que a agente quiser.

20.1.09

Biagens pela Caramelândia
Palhota. Escola Primária. Meio da manhã. O sol caramelo aquece as poças de auga fria, onde alguns porcos chapinham. Os gaiatos brincam e palreiam no pátio. É o intervalo do aprender, onde se aprende as coisas selbagens do ser. No alpendre, duas mulheres braçudas e orgulhosas, vestidas à moda Toino Brinca, observam o gado pequeno, duma ponta à outra do correr. Três pássaros no telhado a olhar para o longe. É grande a caramelândia, mesmo a voar. Na rua passa uma famel a todo o gás, debe ir direita à sede, o home bai buer a primeira mine da manhã. Enrejar a brabeza dá saúde e faz rejeza (diz a boca dos velhos na Palhota). Agora fora da escola. As bozes dos gaiatos mais baixas, rés-do-chão, casa típica caramela. As mulheres chamam o gado brabio, “benham pa dentro, a professora já introu!”. Boa voz para o rancho da Palhota, devem andar lá, amanhã há ensaio, não se esqueçam. O porco adormeceu na poça. Focinho de fora. Parece um crocodilo. Crocodilo-caramelo a grunhir de felicidade. Do outro lado da rua. Calma da manhã. Mercearia da Ti Zulmira dos Pitromaxs. Bende tudo. E mais alguma coisa. “É só dzer”, diz ela. Há diálogo. Há tempo. Há freguesas. Depois é o almoço. Talvez chispes ou dobrada. O home hoje debe de bir a casa. Há diálogo im boz alta, os sacos dos abios, repousam no chão:
-éi
-nã éi!
-éi!
-nã éi!
-o mê gaiato disse que éi!
-e tu acraditas no gaiato?!!
-atão o gaiato éi esperto!
- éi parbo!
-éi esperto!
-éi parbo!
-a terra éi radonda!
-tás parba?!!
-e anda à bolta do sol!
-comós carroseis?!
-sim!
-atão a terra éi um carrosel?!!!
-mais ó menos…
-e éi radonda como uma laranja?
-mais ó menos…
-atão, éi ó nã éi? Primero dizes que sim, ódepois já nã éi?!!
-tu éi que tás a dzer isso…
-eu?!!debes tár párba!
-párba és tu!
-és tu, amais as ideias parbas do tê gaiato!
-tá calada, bê lá mas éi!
-o quéi?
-tás parba, ó quéi?
-ai éis?
-quem?
-eu, secalhar, nã queres tu bêr!
-bái mas éi ber se ê tou no marcado do Pinhal Nobo, a cumprar çaroulas ós ciganos!
-bai mais éi tu ber se ê tou a cumprar rabuçados pá tosse na raforma agráira.
(…)
-éi radonda e anda à bolta do sol!
-e eu sou neta do Zei Maria dos Santos!
- bai mas éi chafurdar na lama amais os porcos
-olha, bai mas éi à merda!
-éi!
-na éi!
E por aí fora, nos aceros da língua em inxovalho crescente, mas sadio. Pelo menos intartãe, diz a Ti Zulmira dos Pitromaxs. Já há mais gente na mercearia. À bolta delas. Oubem cum atinção. Ao longe, o toque do mí-dia. O home já debe ter chegado a casa. Nim almoço, nim mulher. Bai haver punhada e garreia lá im casa.

-éi!
-nã éi!
(…)

14.1.09

O Obama éi ó não caramelo?
(3ª parte, continuação e final)

Se bem se lembram, tábamos a ber se o futuro presidente dos estados unidos é ou não caramelo (ver notícias anteriores), o que no actual momento da cunjuntura locálóglobal nos parece de importância nada aparbalhada e merecedor de um atento olhar caramelo.
Tábamos atão aqui, a ber se nã se perdem “(…) da sua peregrinação ebangelizadora”... Mas tenham calma, e apreguem nobamente os óculos de ber ó perto, porque há mais para dizer: junto aos papeis antigos, lá na sede do rancho, bem no fundo de um tacho, ainda agarrados a um bocado de toicinho já com mais de cem anos, descobriram umas cartas do Eucaristia, onde se pode ler (o historiador entregou-nos as cartas e nós lemos dentro do esconderijo à luz do pitromax clandestino) que o home naquela altura estava no Quénia (fomos ao marcado cumpar um mapa mundo – para ber aquele mundo que fica para lá da Caramelândia- para saber onde éi que isso ficaba, e cuncluimos que éi mais longe do que do Lau à Palhota, só ao pé-coxinho com botas caneleras num dia de naboero) e que o home pinsaba ficar por lá, porque habia belas planícies onde o gado caramelo por ele lebado podia pastar à buntade de forma selbaige, e muitos dos ebangelizados lá da zona já só queriam comer coirataige e buer um preparado de cevada em pequenas gamelas, a bebida-abó da actual mine.
Agora prestem bem atenção, éi o nosso historiador que bai falar: “(…) ora aposto e ateimo que o Fulgêncio deve ter ficado por lá, por uma aldeia qualquer e vivido até ao fim dos seus dias como um rei, com um rebanho de várias mulheres e sempre de pandulho cheio. Descobri nas minhas pricuras, que este home também era conhecido por Fulgêncio Cobridor ou o Cobre-tudo, porque dizem que marchaba tudo o que apanhaba pelo caminho de ir e bir a África, até a bicheza brabia, (dizem que tebe mais de cem filhos). Tenho aquase a çarteza, de que actualmente este home éi cunsiderado uma espécie de santo protector dos descendentes da tribo que o acolheu, sendo adorado como uma espécie de deus, alguém com poderes dibinamente especiais. E éi aqui que a porca grunhe à parba, porque muito provavelmente (ó atão ê cá dedicaba-me á bindima e dexaba de cuntar histórias) um destes cem filhos do Fulgêncio Cobridor terá sido, bejam bócês bem, as coisas quê descubro, primo do tio-avô da abó do futuro presidente dos E.U.A, e todos sabem que esta abó do home-presidente ainda bibe lá, naquelas aldeias. Tenho probas do que digo e nã tenho medo das mostrar, até bou à Junta de Freguesia da Capital, se lá me quiserem óbir, cas orelhas bem destapadas, eles que benham lá com as kodaks do Zéi Maria dos Santos, que a mim nã calam os beiços!”.
Após analisar bem todas estas provas, a FLC decidiu reunir algumas das mais altas indivudualidades da caramelândia, para num debate-garreia, bermos se esta ideia tinha algum trambelho. A reunião foi no Café América, na Carreguera, e tiberam lá, entre outros, Zimbão Cornadura, Ti Balbina Acocorada, Toino das Ideias Parbas, Celestino Bombista, Albino dos Ácaros e o Ti Atoino da Beiça Larga. Ficou decido que sim senhor, a ideia tem trambelho e que duas coisas são importantes:urge ir a África, ber se a tal aldeia ainda existe e se o Ebangelista Cobridor ainda lá tal, imbalsamado, “tipo im estátua”, como referiu o Albino dos Ácaros, antes de dizer que a sua carrinha está à disposição de uma comitiva que queira fazer a mesma biaige, que o ebangelista fazia: “bou já pôr os bancos corridos e ber quanto pitróile éi que se gasta daqui a lá”. A outra coisa importante foi aquase só dita pelo Toino das Ideias Parbas (o Zimbão Cornadura abanou três bezes a cabeça pra cima e pra baixo e fez hum-hum), é que ódepois da comitiba boltar de África, “debia-se de arranjar manera de dezer ó Óbama que ele é descendente do pobo caramelo e que de agora im diante (aqui o Toino das ideias Parbas, imbalado por grade e meia de mines, emocionou-se e lebantou-se de péi em cima duma cadera) debe-se de portar como um dos nossos, de porte altibo, orgulhoso da sua história e identidade ancestral, e punderar uma bisita à gente, ba ber como se bibe na nação dos seus antepassados!. Lebanto a nha mine im nome da caramelândia”, e aqui todos fizeram um brinde, o Celestino Bombista foi buscar foguetaige rija e ficou cumbinado que bão tratar dos preparatibos da biaige a África e de incuntar manera de falar com o presidente da América. No final, o Zimbão Cornadura, na sua sabedoria esotérico-rural, lembrou a todos (acalmando a euforia que ia desimbocando num ensaio da punhada com alguns dos habituais frequentadores do Café América, pouco habituados a óbirem outras bozes a falarim mais alto do que as suas) que "se esse home-Obama quer ser dos nossos, primero debe de dar probas da sua caramelidade, porque ninguém éi caramelo, só porque uns papeis intigos, o probam, um caramelo ó éi ó nã éi!", tendo saído em braços e sob fortes aplausos de todos os prasentes no café América!

25.12.08

Entrebista ao Ti Pau-de-cuspo


São sete e meia da matina, a geada a branquejar no escalracho luta com os primeiros raios de Sol que aparece dos lados da Marateca. O cantar destemido dos galos da bizinhança cruza-se com o grunhido dum porco lá das traseiras da taberna “Ó Bebes ó Pápazias”. À frente deste estabelecimento está uma mãcheia de homes brabios a mandar calar o porco que na pára de fazer propaganda política àquela hora da madrugada.

- Debes ter as nalgas frias, pra tares a grunhir dessa maneira!!! – diz um.
Das cumbersas sai fumo da boca para cima da araige e o esfragar as mãos serve pra aquecer e preparar o sangue para o primeiro copo do dia.
Esta taberna é lugar adonde o Ti Pau-de-cuspo faz a sua bida há mais de 60 anos. Ele puxa a porta arrastando ela pelo chão e essa chiadeira é o mesmo que dizer que já se pode entrar lá par drento.
O home de quem se fala, passa pra trás do balcão de pedra e olha prá gente já com um palito na boca.

(a partir daqui, esta entrevista foi feita pela Marisa Quadriculada, uma jovem universitária que ainda tem muito que aprinder com a FLC)


Marisa Quadriculada – Diga-me lá, desde quando é que usa o palito na boca.
Ti Pau-de-cuspo – Este … ando com ele desde Domingo.
MC – E usa o seu palito 24 horas por dia ou como é que é?
T. PdC – Não, quando me vou ditar cuspo o palito prá rua, opois, logo de manhãzinha, quando acordo, bou buscar outro novazinho.
MQ – E usa o mesmo palito durante todo o dia, ou vai mudando?
T. PdC –Nã. Durante o dia nã me desfaço dele; é sempre o mesmo, tá a cumprinder? Só quando bou ò Marcado do Pinhal Nobo é que ponho um palito nobo… é já uma coisa intiga, um costume intigo.
MQ – Acha que, para a libertação da cultura caramela, toda a gente deveria usar um palito na boca, ou acha que o palito deve ficar apenas reservado aos paladinos da tradição local?
T. PdC O QUÊIM??!!!
MQ – Acha que todos os caramelos deveriam usar um palito na boca?
T. PdC – Eu aicho que cada um usa o que quiser e ninguém tem nada a ber cum isso…Se a menina quiser usar um palito usa, se quiser lember um rajá, lembe tamém. Agora homes a roer pastilhas, com brincos na orelha e anilhas pinduradas no nariz é que é uma pandleiraige que nã tem geito nhum.
MQ – Para isso mais vale usar um palito, não?
T. PdC – Tóóó!!! Tá claro. Tem algum geito um home andar aí com argolas pinduradas nos beiços….
«…há quem ande com argolas pinduradas nos tomates…» disse um cliente, lá ao fundo, que estava a ouvir a entrevista.
MQ – Se a FLC o convidasse para dar umas lições sobre o uso tradicional do palito, você aceitava?
T. PdC – Isto nã precisa de lições nim de livros nim de trugia nhuma. Isto do palito só precisa de infiar um palito nas beiças e já tá. Nã tem nada que saber! E quem quiser saber que benha aqui, faça uma despeza, e eu digo como é que éi. Agora daqui ninguém me arranca, nim pra unibersidades, nim pra teatros nim pra nada.
MQ – E se for no mercado do Pinhal Novo?
T. PdC – Bem, aí bou pinsar.
MQ – O que acha sobre o futuro do palito como objecto fetiche da oralidade caramela?
T. PdCO QUÊIM????!!!
MQ – Acha que o uso do palito na boca, durante todo o dia, vai desaparecer por completo?
T. PdC – Eu aicho que sim. Dizem que a AZAI nã bai deixar ninguéim usar um palito na bia pública! O que eu aicho mal.
MQ – Mas a FLC não vai deixar que isso aconteça.
T. PdC – Pois eu aicho bem que bocêzes lutem por aquilo que é da gente.
MQ - Agora diga-me, continua a procurar novas formas do movimento do palito na boca, ou acha que já chegou ao limite das suas capacidades?
T. PdC – O palito da boca nunca tem fim, tá a ber …. (e demonstra o palito numa coreografia bocal, fazendo uma antologia histórica desta arte, que vai desde o minimalismo contundente até à beiçalidade barroca).
MQ
– É sabido que os caramelólogos (apoiados pela FLC) têm uma oficina de trabalho onde se explora a relação do palito na corporalidade caramela. Dessa oficina já estão a sair resultados vanguardistas desta arte e pretende-se atrair os jovens ao uso quotidiano deste objecto na boca, abolindo as gomas e as pastilhas elásticas que são feitas de petróleo americano. O que acha disso?
T. PdC – Eu aicho bem. Uma bez roí uma pastilha e ela colou-se-me às gengibes que tive que raspá-la com uma nabalha. Nunca mais! Eu aicho que bocês fazim bem, se é pra tirar a repaziada da má bida, pois que façam isso que eu apoio.
MQ- Obrigada.
T. PdC – Como bocemecê é da FLC, beba aqui ca gente um copo pró caminho.